João Pedro é meu neto. 

Cavoquei aqui agora em minha memória um desafio entre nós quando ele tinha quatro anos, talvez próximo de cinco , não mais.

Tinha ele na mão, com o braço estendido em minha direção, um objeto, não me lembro bem o que, que exigia de mim uma leitura, minha meta era tormar-lhe da mão.

Pedi que se aproximasse porque não estava dando para ler, ele deu um passo a frente, insisti para que se aproximasse mais porque a leitura ainda estava difícil e ele deu um passo a mais. 

Na solicitação seguinte que fiz para que o objeto ficase ao meu alcance ele abaixou o braço, deu aquele sorriso de lado, e cravou em mim aquele olhar azulado e seguro de quem está anos luz a sua frente e soltou:

"Vô, você tem que ser mais esperto do que isso para me enganar".

O que posso dizer? O que valeu para a minha geração talvez vallha para a geração atual que está no berço.


Jorge Ferreira

Proseando no centro da cidade é o que faziamos até tarde da noite, quase sempre.

O centro da cidade em Ibitinga era uma ilha na José Custódio, entre a Domingos Robert e a D.Pedro II, em frente o cine Rio Branco e o bar Maraba.

Quando encerravamos a noite desciamos, o José Cláudio Lacerda e eu até a Tiradentes onde arrematavamos a conversa, ali em frente as casas de Carlos Abib, advogado, e de Flávio Pinheiro, médico, de onde saia sempre na madrugada, pela veneziana de um dos cômodos uma luz seguida do som das teclas da máquina de escrever. Dalí seguíamos, ele a direita para a dr. Teixeira e eu a esquerda para a Victor Maida.

Certa noite, já entrando na madrugada, estávamos lá entretidos na conversa quando ouvimos um estrondoso "Tudoba?". Era o Jorge Ferreira descendo a José Custódio.

O Lacerda e eu tinhamos uma espécie de código ou um dialeto particular que as vezes usávamos para nos entender. Era nada complicado, cortávamos as palavras e acrescentávamos um "a" no final, e  foi aí durante uma conversa dessa que fomos surpreendidos pelo interesse do Jorge Ferreira na mecânica do "dialéto".

Sempre que nos encontrávamos era obrigatório testar as palavras, ele gostava muito do "Tudoba" (Tudo bem?) e do "Boana" (Boa Noite) mas não era para todas que dava certo, e quando isso acontecia ele dizia "Essa não deu" seguida daquela risada gostosa dele que saia com todo ar dos pulmões e chegava longe..

Naquela madrugada dos anos sessenta não foi diferente, ficamos um longo tempo ali naquela esquina, ele se divertia e ria muito. Todos nós riamos.

Num repente, atrás daquela luz que saia da veneziana da casa do Flávio Pinheiro não foi o som do teclado de sua máquina de escrever e sim um sonoro "Vamos parar com esse barulho aí"

Jorge Ferreira voltou os olhos para a janela, recolheu o sorriso e ficou alí, imóvel por um bom momento. Parado.

Lacerda e eu ficamos na espctativa, imóveis também, olhando para o Jorge até que ele balançou a cabeça como saindo de uma profunda reflexão, abriu a boca e saiu dali aquela voz forte dele, um trovão, "E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO COMO É QUE FICA?"

Dito isso virou-se para nós e se despediu:

"BOANA"

E seguiu para casa.


Sete de setembro

 

Nos dias que antecediam ao sete de setembro o professor de educação física nos preparava para o desfile, parte da aula era reservado para esse treinamento, acertar o passo, atender aos comandos: alto, esquerda, direita, meia volta volver. O restante era o que todos queriam, praticar o esporte que na época era o basquete.

A única regra do treinamento era não errar, errou ia sentar na mureta da quadra e ficava fora do esporte. Bem, meus companheiros eu via um a um sendo eliminados até que só eu fiquei na quadra. O Paulo Ghiraldelli, professor de educação física, insistiu comigo, talvez na esperança de que eu fosse também para a mureta. Depois de muito insistir entregou-me a bola e fiquei eu lá no meio da quadra sem entender muito bem o que estava acontecendo, correndo sozinho

 Depois de um tempo mandou que todos entrassem, talvez tenha se cansado ou que alguma lição saíra dali, para mim e meus colegas.

Na verdade, mais tarde, o que entendi dessa experiência é que a infalibilidade e a perfeição não tem muito a ver com o ser humano. Tem mais a ver com as máquinas quando é preciso fabricar milhões de parafusos todos infalivelmente perfeitos.

Ser infalível, perfeito ou perfeita não parece humano, daí ser taxado assim não pode ser considerado um elogio.

É na melhor das hipóteses um desaforo.


O cine Rio Branco em Ibitinga ficava na José Custódio ao lado da praça da matriz.

Além da saída pela frente havia outra pela lateral, por um bar que funcionava vizinho, bar Rio Branco, onde meu pai tinha alguma participação, uma sociedade ou coisa assim. Eu criança, saia do cinema de mãos dadas com ele, caminhávamos por umas mesas de sinuca que funcionava nos fundos do bar, aí ele estendia o braço sobre a mesa pegava uma bola e colocava na minha mão e então seguíamos para a saída.

Aquilo era divertido, o que imagino é que o pessoal ali na peleja não via muita diversão nisso.

Irmos até a piscina do Kiko era um programa que meu primo Gilson e eu fazíamos quase toda tarde. Certo dia voltando para casa encontramos no caminho o Antonio Haddad que nos deu carona.

Em outros tempos, no cruzamento com a perimetral, que não existia na época, tinha um pontilhão, um mini viaduto que foi construído para evitar o cruzamento em nível com a estrada de ferro. O trem passava por baixo. Do lado da d. Pedro a inclinação era pequena mas do outro lado não. Era uma boa subida.

O Antonio Haddad acelerou para subir e desligou o motor. O carro subiu, subiu e quase parando chegou ao topo, deslizou lentamente até o outro lado e no limite desceu na outra ponta. Aí ele deu o tranco e fomos em direção a d. Pedro.

Não posso dizer que isso era comum, desligar o motor do carro na subida, talvez aquilo fosse, para ele, uma boa diversão.

Entediados naquela madrugada na “república” da Cardeal Arcoverde, o Reinaldo Maia e eu, resolvemos sair atrás de um bar - havia na Teodoro Sampaio vários que não fechavam, ou estavam abrindo.

Caminhamos  a João Moura, ali na Teodoro tinha o Sarrafo, fechado.

Então subimos para uma padaria que naquelas horas ficava a meia porta, fechada.

O Gordo, fechado.

Continuamos andando, deixando para trás um punhado de outros fechados e chegamos à Consolação.

O Riviera, fechado. Sujinho, fechado.

Não éramos de desistir, continuamos andando, entramos em uma rua da Bela Cintra  onde sabíamos havia um outro, fechado.

Continuamos.

Todos fechados, a cidade deserta e nós ali no meio da rua Augusta, nada vivo para cima nem para baixo. O que sentíamos era que a vida no planeta acabara e não soubemos. Sobreviventes sem suprimentos.

Em outra época moramos por ali na Herculano de Freitas, sabíamos então que havia um perto do antigo teatro Record, eu acho. Descemos.

Quando menos esperávamos um vulto subia a Augusta, pelo meio da rua como nós.

Quando poderíamos imaginar que saindo de casa naquela madrugada deserta fossemos cruzar, depois daquela maratona toda, com o Antonio Longhi, o Nicão?

Três almas ibitinguenses na madrugada paulistana dos anos setenta.

Ele voltou ao seu caminho subindo e nós ao nosso, descendo.

Não lembro mais nada sobre essa madrugada, se encontramos o bar nem como voltamos para a Cardeal Arcoverde.

Acredito que encontramos, por isso não me lembro.

TSE

O Cupini, alfaiate, morava na coronel Gereto, então mudou-se para São Carlos que parecia a cidade desses profissionais, tinha até um clube dos Alfaiates onde promoviam bailes carnavalescos concorridos.
Depois que mudou voltava periodicamente para vender alguns produtos em Ibitinga. Numa ocasião trazia ele certo tecido e meu pai o levou até em casa, instalaram-se na sala, fiquei lá com eles. Meu pai limpou a mesa de trabalho dele e o Cupini a cobriu com um tecido bege clarinho, macio que parecia destinado a cair no corpo para muito conforto. Ficaram olhando aquele tecido estendido naquela mesa por um momento quando o Cupini jogou sobre ele fluido de isqueiro e pôs fogo, vi a chama subir e a surpresa me assustou. Alguns segundos e abafaram o fogo.
Fomos ver o estrago e nada, nenhum dano, parecia que o tecido acabara de sair da fábrica. Outra surpresa.
Saí da sala e contei para minha mãe a novidade que não a emocionou muito, acho que estava mais interessada nas suas tarefas.
No dia seguinte voltava do colégio e meu pai pegou-me no portão de casa:
- Vá até a alfaiataria, deixei um tecido com o Nori. Ele vai fazer um terno para você.
Era o tal tecido.
Não sei bem qual era a preocupação do meu pai comigo na época, meu primeiro terno foi antichamas.

JBS

Não cheira bem esse matadouro geral.

No capitalismo só é grátis o choro.

Alguns anos atrás não havia a Imigrantes, então as idas e vindas para Santos fazia-se  pela via Ancieta que era praticamente o endereço da Volkswagen.

Nessa época houve o lançamento de um produto da industria automobilistica que foi um sucesso nacional, o Corcel da Ford. Vendeu muito, ganhou o mercado.

Esse automóvel tinha uma novidade, o radiador selado que acreditava-se dificultar o aquecimento do motor

Em todo fim de semana quando o pessoal voltava do descanso na praia o trecho da serra da via Anchieta ficava lento, congestionava e se tornava a grande preocupação para os motoristas, o tal aquecimento do motor. Era comum ver veículos parados nas areas de descanso por esse motivo.

Aproveitando essa motivação a Volkswagen colocava em frente a sua fábrica estacionado na via Anchieta, por onde passavam todos os veículos saídos dessa sessão de tortura que era a Serra do Mar, o concorrente Corcel com o capô do motor levantado insinuando o problema na esperança de neutralizar o sucesso do veículo da Ford. 

Alguns teimam em achar que há lealdade às régras da concorrência. Lisura.

Ocorreu-me uma historinha quando Ibitinga estava sob intervenção da ditadura Vargas, o interventor não veio só, chegou com uma tropa de soldados e para não economizar balas.

Bem, a historinha então: diante da ameaça que um cidadão sofria de levar um tiro. João Ferreira entrou na frente da arma e batendo no peito: "Vamos atira, você vai matar um brasileiro". Tudo isso dito com o sotaque árabe que ele carregou a vida inteira. 
O soldado recolheu a arma e foi embora.
Ele, apesar do amor que tinha por esse país, nunca perdeu aquele sotaque principalmente quando tinha que enfrentar alguns nomes como Wilson Racy ou William Kortas. Aí ele mandava: " Urso Racy" ou "Uleão Kortas".
Meu pai as vezes reagia: " João, faz cinquenta anos que você mora no Brasil e ainda não aprendeu a falar o português"

Hora do lanche no Congresso.

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