ELEIÇÕES
MP e TSE prometem rigor na fiscalização para que não haja campanha política fora do prazo. Me diga aí, o que é que os candidatos a candidatos estão fazendo até agora? Um deles está até explicitamente em campanha numa caravana pelo país.

ELEIÇÕES

"CARAVANA CRUCIS"

Pretensão messiânica em direção ao Santo Sepulcro, intenção de uma redenção pascoalina política.

O Nicolielo e eu fomos contemporâneos em Bauru na Faculdade de Direito mas nunca nos encontramos lá, eu o conheci atravéz da tira que ele publicava no boletim do centro acadêmico, o personagem era um professor bastante popular, de economia eu acho, o Fairbanks.

Acabei me transferindo para a faculdade de Santos e nos distanciamos. Não durei um ano em Santos e fui para São Paulo onde depois de algum tempo comecei a trabalhar como cartunista. Foi quando encotrei-me com o Nicolielo na Folha da Tarde e nenhum dos dois advogava.

Mais ou menos nessa ocasião a polícia arrastou um bando de cartunistas para o presídio Tiradentes, lotou uma cela. "Não podemos ficar aqui, temos que sair logo. Alguém conhece um advogado", alguém murmurou.

Acendeu a lampadinha na cabeça do Alcy: "O Nicolielo é advogado".

Não conheço o desfecho, mas com a pouca boa vontade da polícia com os cartunistas, se chamaram, diminuiu o espaço na cela.

 

ELEIÇÕES

Alguns anos atrás ninguém pensaria nisso, incrível, mas parece que Ciro Gomes está se tornando a opção para as eleições.

Acho que é assim que pensam: a reconstrução é por baixo que começa.

No começo dos anos setenta estava a toa fui até o cine Marabá assistir Tobruk, um filme sobre um episódio da segunda guerra mundial. Sessão da tarde.

Entrei e não tinha muita gente, foi fácil sentar onde gosto, no meio da fileira um pouco a frente do meio da sala.

Enquanto a fita corria, algumas poltronas à minha esquerda um espectador, de terno segurando no colo um chapéu ou uma boina escura, murmurava com um pequeno sotaque que não identifiquei:" É mentira". E a cada sequência aumentava o tom: "É mentira. Não foi assim". "Mentira". 

Joguei minha atenção a ele: "O que está acontecendo?"

Olhou para o meu lado, inclinou-se na minha direção e disse: "Não foi assim. Eu estava lá".

Assisti Tobruk acompanhado de um ex combatente da batalha no norte da Africa, no cine Marabá, a alguns metros da esquina da Ipiranga com a São João por onde passa, definitivamente, todo O MUNDO.


Pegava um dos últimos ônibus na Cidade Universitária que me deixava na Consolação no ponto logo abaixo do cine Belas Artes.

Parou ali e coloquei a perna fora para descer quando entre a sarjeta e o onibus surgiu uma lambreta e me pegou, voei e caí na calçada, levantei rápido e parecia que nada mais grave acontecera comigo. Nada que me chamava a atenção, mas ao pessoal que ali estava a espera alguma coisa os assustara. Apontavam para meu agasalho e percebi dois finos riscos de sangue nada alarmante, mas indicava que algo não estava bem.

Olhavam o meu queixo assustados, uma abertura ali precisava de cuidados.

Atravessei a Consolação e entrei em uma farmácia chamando a atenção, não podiam me atender o caso exigia pontos e naquela época todos os ferimentos deveriam ser atendidos em um hospital e comunicados a polícia.

Voltei para o outro lado da avenida e andei até um hospital que havia quase ao lado do Belas Artes.

Ganhei nove pontos no queixo, um curativo do tamanho de minha cabeça, uma série de recomendações e uma receita de remédios para a dor e para evitar uma infecção.

Quando saí dois policiais estavam a minha espera e me levaram a delegacia do bairro, perto da praça Roosevelt, para pegar meu depoimento.

Nesse momento já estávamos entrando na madrugada, dei o depoimento e fiquei lá na sala de espera, a entrada da delegacia, acompanhando o movimento. Um senhor com um curativo na cabeça. Uma menina com o pai e um policial querendo saber de quem ela recebera certo material ilegal, o pessoal da burocracia comentando os casos, o meu inclusive, e num tom de brincadeira insinuavam um atentado de lambreta, assim foi passando o tempo. Já entrávamos na madrugada.

Vi saindo de dentro da delegacia um jovem que achei reconhecer da faculdade de direito em Bauru, cheguei e conversamos, não era ninguém que eu conhecesse, mas tinha ligação com o Direito, nisso acertei. Estava ali assumindo um espaço como delegado. Assim foi-se mais um pouco da madrugada, ele sumiu lá para dentro e eu voltei ao meu posto de espera.

Enquanto o tédio e o cansaço me consumia levando-me quase ao limite da resistência ele voltou, chegou até onde eu estava: "Falei com o delegado ele vai dispensá-lo, vá falar com ele". Fui.

A porta estava entreaberta, ele atrás de uma mesa e duas moças em sua frente que tratavam de um programa de televisão, dele ou que ele deveria participar.

Quando me viu apontou e falou alto como se eu estivesse bem mais longe do que estava, talvez para impressionar o pessoal da sala: "Eu sei o que você está fazendo. Está assumindo para livrar o rapaz. Eu sei."

Eu confirmei meu depoimento, insisti na minha desatenção no acidente. Ele fez um gesto jogando a mão para o alto e me dispensou e antes que eu saisse repetiu: "Eu sei o que você está fazendo."

Saí da delegacia peguei a Augusta e mesmo cansado apertei o passo para casa, cheguei, abri a porta e estavam todos lá, Eduardo Jacob, Reinaldo Maia e Washington meu irmão, acordados e impressionados, talvez com o tamanho do curativo que eu carregava.

Queriam detalhes, não tive ânimo para me alongar e fui breve: "Quando descia do ônibus fui pego por uma lambreta, me machuquei, acabei em um hospital depois em uma delegacia até ser dispensado agora pouco."

Tirei os sapatos, cai na minha cama e devo ter adormecido enquanto minha cabeça descia para o travesseiro.

Vamos agora atropelar o tempo , uns dois ou três mêses, meu queixo já estava melhor, meu irmão chega em casa no começo da noite vindo da USP, ele se formara em cinema na Comunicações e ficara por lá orientando alunos. Vira para o meu lado: "Temos de ir até a Paulista assistir Uma Mulher para Sábado, a apresentação é uma animação do Marcelo Tassara." O Maia topou, era fã da Adriana Prieto, nós também, mas ele era mais.

Marcelo Tassara era o nome do cinema de animação, físico e cineasta. O Washington conversara com ele, ficara sabendo da estréia e resolveu que eu deveria assistir.

O interesse tinha a ver com uma empreitada do Maia, um filme experimental a que ele se dedicava, realizado na estrutura de um prédio inacabado que havia na Cidade Universitária e tinha como atriz a Sonia Braga, talvez num de seus primeiros papéis no cinema, patrocinado por um grupo de cientistas da Quimica que investia em cultura, KAOS. O Maia pediu-me para pensar em uma animação para a apresentação do filme.

Fomos lá, o Maia, o Washington e eu, animados e quando saimos do cinema não saimos decepcionados. Pegamos a Paulista e entramos na primeira travessa para a rua paralela e seguimos nela, logo a frente estava a direita  a rua que nos levaria até em casa.

Caminhávamos despreocupados no meio daquela rua deserta no finalzinho da noite quando, atrás de nós, nos alertou o som de pneus de um carro que entrava em alta velocidade na rua em que estavamos. Chegou rápido, pulamos de lado escapando menos minha perna, voei novamente.

Enquanto o Maia e o Washington me levantavam o carro, que entrara na rua que era nosso destino, diminuiu a velocidade para, talvez, verificar o tipo de estrago que causara e vendo que eu levantara ou porque o Maia corria atrás atirando algo que pegara do chão e mais uns impropérios acelerou e sumiu na escuridão da rua.

Eu verificava minha situação, parecia tudo em ordem apenas algum sentimento não identificado doia,  os dois decidiam em qual hospital me levariam.

Não me parecia boa idéia já que saira ileso. Vítima de acidente poderia acabar novamente, por quase toda a madrugada, na delegacia onde estivera pouco tempo atrás pelo mesmo motivo e se daquela vez uma simples lambreta, mesmo que por brincadeira, lembrara um atentado, ser atropelado por quase duzentos cavalos, pouco tempo depois, poderia virar uma hipótese viável para eles. Pensar assim parecia locura, mas era melhor não arriscar.

Com esse argumento e vendo que eu estava bem foi suficiente para eles, decidimos ir para casa, acertamos o passo em direção a penumbra daquela rua e fomos.

REFORMANDO A PREVIDÊNCIA

Há uns anos atrás o senador de Alagoas Arnon de Mello discursava no plenário do senado quando foi destratado por um conterrâneo, Arnon sacou da arma e mandou bala no desafeto que saiu ileso, as balas atingiram um senador do Acre que estava no fundo do plenário e nada tinha com a contenda, matou o inocente.

Parece que não mudou muito vendo essa reforma da previdência em que o ponto forte de sustentação é o combate aos super salários quando na verdade vão atingir mais aqueles que recebem o que mal dá para subsistir.

A prática continua viva no Congresso, atirando no que  viu e liquidando os inocentes. 

João Pedro é meu neto. 

Cavoquei aqui agora em minha memória um desafio entre nós quando ele tinha quatro anos, talvez próximo de cinco , não mais.

Tinha ele na mão, com o braço estendido em minha direção, um objeto, não me lembro bem o que, que exigia de mim uma leitura, minha meta era tormar-lhe da mão.

Pedi que se aproximasse porque não estava dando para ler, ele deu um passo a frente, insisti para que se aproximasse mais porque a leitura ainda estava difícil e ele deu um passo a mais. 

Na solicitação seguinte que fiz para que o objeto ficase ao meu alcance ele abaixou o braço, deu aquele sorriso de lado, e cravou em mim aquele olhar azulado e seguro de quem está anos luz a sua frente e soltou:

"Vô, você tem que ser mais esperto do que isso para me enganar".

O que posso dizer? O que valeu para a minha geração talvez vallha para a geração atual que está no berço.


Jorge Ferreira

Proseando no centro da cidade é o que faziamos até tarde da noite, quase sempre.

O centro da cidade em Ibitinga era uma ilha na José Custódio, entre a Domingos Robert e a D.Pedro II, em frente o cine Rio Branco e o bar Maraba.

Quando encerravamos a noite desciamos, o José Cláudio Lacerda e eu até a Tiradentes onde arrematavamos a conversa, ali em frente as casas de Carlos Abib, advogado, e de Flávio Pinheiro, médico, de onde saia sempre na madrugada, pela veneziana de um dos cômodos uma luz seguida do som das teclas da máquina de escrever. Dalí seguíamos, ele a direita para a dr. Teixeira e eu a esquerda para a Victor Maida.

Certa noite, já entrando na madrugada, estávamos lá entretidos na conversa quando ouvimos um estrondoso "Tudoba?". Era o Jorge Ferreira descendo a José Custódio.

O Lacerda e eu tinhamos uma espécie de código ou um dialeto particular que as vezes usávamos para nos entender. Era nada complicado, cortávamos as palavras e acrescentávamos um "a" no final, e  foi aí durante uma conversa dessa que fomos surpreendidos pelo interesse do Jorge Ferreira na mecânica do "dialéto".

Sempre que nos encontrávamos era obrigatório testar as palavras, ele gostava muito do "Tudoba" (Tudo bem?) e do "Boana" (Boa Noite) mas não era para todas que dava certo, e quando isso acontecia ele dizia "Essa não deu" seguida daquela risada gostosa dele que saia com todo ar dos pulmões e chegava longe..

Naquela madrugada dos anos sessenta não foi diferente, ficamos um longo tempo ali naquela esquina, ele se divertia e ria muito. Todos nós riamos.

Num repente, atrás daquela luz que saia da veneziana da casa do Flávio Pinheiro não foi o som do teclado de sua máquina de escrever e sim um sonoro "Vamos parar com esse barulho aí"

Jorge Ferreira voltou os olhos para a janela, recolheu o sorriso e ficou alí, imóvel por um bom momento. Parado.

Lacerda e eu ficamos na espctativa, imóveis também, olhando para o Jorge até que ele balançou a cabeça como saindo de uma profunda reflexão, abriu a boca e saiu dali aquela voz forte dele, um trovão, "E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO COMO É QUE FICA?"

Dito isso virou-se para nós e se despediu:

"BOANA"

E seguiu para casa.


Sete de setembro

 

Nos dias que antecediam ao sete de setembro o professor de educação física nos preparava para o desfile, parte da aula era reservado para esse treinamento, acertar o passo, atender aos comandos: alto, esquerda, direita, meia volta volver. O restante era o que todos queriam, praticar o esporte que na época era o basquete.

A única regra do treinamento era não errar, errou ia sentar na mureta da quadra e ficava fora do esporte. Bem, meus companheiros eu via um a um sendo eliminados até que só eu fiquei na quadra. O Paulo Ghiraldelli, professor de educação física, insistiu comigo, talvez na esperança de que eu fosse também para a mureta. Depois de muito insistir entregou-me a bola e fiquei eu lá no meio da quadra sem entender muito bem o que estava acontecendo, correndo sozinho

 Depois de um tempo mandou que todos entrassem, talvez tenha se cansado ou que alguma lição saíra dali, para mim e meus colegas.

Na verdade, mais tarde, o que entendi dessa experiência é que a infalibilidade e a perfeição não tem muito a ver com o ser humano. Tem mais a ver com as máquinas quando é preciso fabricar milhões de parafusos todos infalivelmente perfeitos.

Ser infalível, perfeito ou perfeita não parece humano, daí ser taxado assim não pode ser considerado um elogio.

É na melhor das hipóteses um desaforo.


O cine Rio Branco em Ibitinga ficava na José Custódio ao lado da praça da matriz.

Além da saída pela frente havia outra pela lateral, por um bar que funcionava vizinho, bar Rio Branco, onde meu pai tinha alguma participação, uma sociedade ou coisa assim. Eu criança, saia do cinema de mãos dadas com ele, caminhávamos por umas mesas de sinuca que funcionava nos fundos do bar, aí ele estendia o braço sobre a mesa pegava uma bola e colocava na minha mão e então seguíamos para a saída.

Aquilo era divertido, o que imagino é que o pessoal ali na peleja não via muita diversão nisso.

Irmos até a piscina do Kiko era um programa que meu primo Gilson e eu fazíamos quase toda tarde. Certo dia voltando para casa encontramos no caminho o Antonio Haddad que nos deu carona.

Em outros tempos, no cruzamento com a perimetral, que não existia na época, tinha um pontilhão, um mini viaduto que foi construído para evitar o cruzamento em nível com a estrada de ferro. O trem passava por baixo. Do lado da d. Pedro a inclinação era pequena mas do outro lado não. Era uma boa subida.

O Antonio Haddad acelerou para subir e desligou o motor. O carro subiu, subiu e quase parando chegou ao topo, deslizou lentamente até o outro lado e no limite desceu na outra ponta. Aí ele deu o tranco e fomos em direção a d. Pedro.

Não posso dizer que isso era comum, desligar o motor do carro na subida, talvez aquilo fosse, para ele, uma boa diversão.

Entediados naquela madrugada na “república” da Cardeal Arcoverde, o Reinaldo Maia e eu, resolvemos sair atrás de um bar - havia na Teodoro Sampaio vários que não fechavam, ou estavam abrindo.

Caminhamos  a João Moura, ali na Teodoro tinha o Sarrafo, fechado.

Então subimos para uma padaria que naquelas horas ficava a meia porta, fechada.

O Gordo, fechado.

Continuamos andando, deixando para trás um punhado de outros fechados e chegamos à Consolação.

O Riviera, fechado. Sujinho, fechado.

Não éramos de desistir, continuamos andando, entramos em uma rua da Bela Cintra  onde sabíamos havia um outro, fechado.

Continuamos.

Todos fechados, a cidade deserta e nós ali no meio da rua Augusta, nada vivo para cima nem para baixo. O que sentíamos era que a vida no planeta acabara e não soubemos. Sobreviventes sem suprimentos.

Em outra época moramos por ali na Herculano de Freitas, sabíamos então que havia um perto do antigo teatro Record, eu acho. Descemos.

Quando menos esperávamos um vulto subia a Augusta, pelo meio da rua como nós.

Quando poderíamos imaginar que saindo de casa naquela madrugada deserta fossemos cruzar, depois daquela maratona toda, com o Antonio Longhi, o Nicão?

Três almas ibitinguenses na madrugada paulistana dos anos setenta.

Ele voltou ao seu caminho subindo e nós ao nosso, descendo.

Não lembro mais nada sobre essa madrugada, se encontramos o bar nem como voltamos para a Cardeal Arcoverde.

Acredito que encontramos, por isso não me lembro.

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